5 de novembro de 2017

EREFIL - Região Sul, 2017.

No texto que se segue, tratarei sobre o EREFIL (Encontro Regional dos Estudantes de Filosofia), o evento mais amor que já tive a honra de participar:

 “Passei os três dias do evento viajando - literal e figurativamente. Aquele lugar possuía uma vibe que eu nunca senti antes em minha vida. Ou melhor, o lugar não, o que proporcionava aquela energia eram mesmo as pessoas. 
Os dias que antecederam a ida ao evento foram corridos e estressantes: quando tudo parecia estar certo, novos impedimentos apareciam. Tanto que fiquei o caminho todo esperando por novos problemas no trajeto, sendo que o fim do mundo em forma de chuva que caia não ajudava em nada a melhorar essa sensação. 
Mas então, contra todos os possíveis empecilhos, chegamos à escola Érico Veríssimo em Erechim, a nossa "casa" pelos próximos dias. 
O sentimento inicial foi de completo estranhamento. Ainda havia poucas pessoas no ambiente e as que lá estavam, participavam de uma oficina de meditação. Fomos recepcionados e acompanhados primeiramente ao credenciamento, e depois a sala onde residiríamos. Duas das salas que nos foram oferecidas já estavam cheias, então acabamos optando por uma terceira, em que fomos os primeiros a chegar. Mas o estranhamento permanecia, e o pensamento de: "meu deus, onde fui me meter?, agora que estou aqui, terei que passar os próximos três dias nesse local, a 300km de casa e com esse pessoal que mal conheço", tudo isso incluindo os colegas que estavam junto comigo, os quais até então nunca havia tido muita proximidade.
Na verdade não sei ao certo em que momento aquilo tudo passou a ser considerado “casa” e por que não, até uma "família" (cá entre nós, a mais louca família). Talvez tenha sido no primeiro dia do evento, à tarde, deitados na grama do pátio da UFFS, sob o sol e aquela vista linda do lago, com uma ótima trilha sonora. Ou talvez tenha sido no mesmo período do dia seguinte, só que em oposição ao primeiro, com a chuva que caía.
Talvez tudo se deva às viagens de ida e volta até a universidade, com aquela galera alto astral, que era capaz de tirar músicas em qualquer lugar de qualquer coisa possível de ser batucada. Quanta gente talentosa em um único lugar! Quantas referências musicais, literárias, humanas, (...) que levarei depois desse evento.
Ênfase também para o sarau. Gente, o que foi aquele sarau? Aquilo tudo renovou minhas energias de tal forma que até agora é difícil dissipar aquela sensação e voltar para a realidade.
Claro, não esquecendo também das conversas até altas horas da madrugada e porque não, até do galo. Saímos da colônia e a colônia não sai da gente. E a festa... Bem, a galera soube fazer uma festa digna de ficar para a história.
Enfim, precisava registrar parte desses momentos, que em sua totalidade, constituíram a experiência mais incrível da minha vida (e tenho certeza que de tantas outras).
Sou extremamente grata a todos que tornaram isso possível. 
Agora partiu fazer memes, que tenho muito material.”

EREFIL – Região Sul, 2017. Ocorrido nos dias 12, 13 e 14/10, em Erechim – RS.

20 de maio de 2017

Depois do fim

Para muitos, o fim de qualquer festa é simbolizado pelo momento em que a banda que está tocando encerra seu show, que as cortinas se fecham. (Se houverem cortinas a ser fechadas.)
Pois eu vós digo, caríssimos amigos: este não é o fim.
Há muitos bastidores por trás de qualquer show, festa, apresentação. Há muito que fazer também quando “ninguém está vendo”.
Mas você só percebe estas coisas, se permanecer além daquele tempo costumeiro onde todos já estão indo embora. Porque o pós-show é sempre a melhor parte.
É aquele momento que as luzes já não piscam desenfreadamente, até a música parece já estar perdendo as forças e diminuindo sua intensidade, seu volume, seu ritmo. É o momento em que você pode conversar com os que ali ainda restarem sem que seja preciso gritar.
Se o show tiver sido de alguma banda mais local e você tiver um pouco de sorte, pode até compartilhar uma cerveja com os músicos. Então verá toda a humanidade que há neles, conhecerá um pouco de seus sonhos, que geralmente não consistem em turnês mundiais, nem ambições inatingíveis.
É no pós-show também que você verá as pessoas, sejam funcionários do local, gente da produção da banda, ou muitas vezes os próprios integrantes dela, recolhendo seus instrumentos que permaneceram no palco, e que você, que saiu antes do pós-show, deve pensar que se teletransportam com a força do pensamento. Os caras são músicos, não telepatas.
Há ainda outro grupo de pessoas que organiza o ambiente, então o lixo é recolhido, o chão é varrido. E a cerveja continua sendo bebida. E os sonhos continuam sendo sonhados, enquanto a conversa continua a fluir.

9 de maio de 2017

Carta de amor a mim mesma

O amor é algo complicado, né? Você confia, se entrega e nunca é suficiente.
Sinceramente? Agradeça por isso. Na medida em que você se contrai ou se expande para caber em espaços que não são adequados para o seu tamanho, você estará se dispondo a mudar sua forma original. Se você não tem sido suficiente, agradeça, há uma grande possibilidade de que sua forma original esteja íntegra. Conserve-a assim. E mais do que isso: ame-a. Com todas as suas forças, com todo o seu ser.
Os espaços, quando muito pequenos ou muito grandes, não devem ser ocupados à força. Dedique-se a preencher o seu: pinte as paredes, redecore a mobília, espalhe flores, o que preferir. O indispensável mesmo é mantê-lo limpo e longe de migalhas.
Porque entre amar o que desejamos e não temos, como o era o amor Platônico, ou amar somente o que temos, como considerava Aristóteles referindo-se ao amor, prefiro amar quem sou.

9 de março de 2017

Não é sobre ter todas as pessoas do mundo pra si

Com o tempo - e com a vida, e com a maturidade - você aprende que o amor é sobre ver a outra pessoa feliz, mesmo longe. É sobre a deixar continuar a vida, seja ao seu lado ou não, mesmo que a dor pareça te consumir em certas noites solitárias.
O amor é um sentimento altruísta, não há espaço para o "eu" nele. O amor é composto de "nós" (como primeira pessoa do plural, mesmo que em nossa pluralidade sejam necessárias duas pessoas), - e nós - e do quanto você é capaz de desejar sentimentos positivos para o outro independente das circunstâncias. Independente das mágoas, do caminho que ele escolheu seguir. Independente do cabelo que ele escolheu afagar e do abraço que ele escolheu repousar quando nada parece fazer sentido.
Ainda assim, ou talvez exatamente por estes e outros motivos, somos indivíduos dignos de empatia e respeito. Apenas faça por merecer cada umas destas palavras.

12 de dezembro de 2016

Onde fica a diversão quando os parques estão fechados?

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Quem nunca ouviu a típica analogia da vida e dos altos e baixos da montanha russa. Outra variação possível deste mesmo tema é aquele momento onde você encontra-se no ponto mais alto que determinado brinquedo pode atingir; a adrenalina, e enfim, a queda inevitável que vem em seguida. Talvez a única queda premeditada e inclusive buscada por grande parte das pessoas. Mas a verdade é que em ambos os casos, é muito fácil comparar a vida a parques de diversão: são as luzes coloridas e piscantes, a comemoração, a alegria, o divertimento que o próprio parque pressupõe. Mas se a vida é como um parque de diversão, como pode-se entender a vida quando o parque apaga suas luzes e fecha suas portas?

16 de agosto de 2016

Quão grave é a situação na qual nos perdemos?

Quão grave é a situação na qual nos perdemos?
Porque não é possível nem mesmo dizer que nos encontramos nesta situação, levando em consideração que ninguém sabe nem onde está, quem dirá encontrar qualquer coisa.
Ando com a convicção de que Epicuro nunca esteve tão certo em seu conceito de autarkeia, o bastar-se a si mesmo. Porque só neste estado de perfeita comunhão consigo mesmo seremos capazes de atingir a felicidade, em tempos antigos, somente alcançada pelos sábios. 
Eu realmente prefiro acreditar que as pessoas não sejam más, e sim, que elas só estejam perdidas. Talvez o principal problema seja justamente este: ninguém deseja se encontrar. 
Para a maioria das pessoas, quanto mais afastadas de si mesmas, maior é a sensação de segurança. Mal sabem elas o perigo que podem estar correndo, apoiando-se em ombros que mal conseguem sustentar o próprio peso, quem dirá carregar outra criatura tão – ou até mais – pesada. Porque a maior dificuldade é sempre carregar aquele peso que não é material, mas que todos carregamos – ou arrastamos – consigo e do qual não conseguimos livrar-nos jamais.
A carga que ninguém parece conseguir aguentar sozinho. 
Somos apresentados – ao mundo e a nós mesmos - como grãozinhos insignificantes, com medo de sua própria insignificância. E talvez sejamos mesmo esses seres tão frágeis e quebrados em milhares de fragmentos. E mesmo os que se julgam tão fortes, inevitavelmente em algum momento da vida, serão eles também golpeados por uma existência incessante e da qual eles não conseguem ter domínio. 
Mas apesar disso tudo, ainda assim, contudo, portanto, todavia... Vivemos. Estamos sempre, constantemente, impreterivelmente, em processo de construção. Não como sólidas muralhas, mas como obras inacabadas sujeitas ao vento, a chuva e a todos os tipos de intempéries possíveis. 

22 de junho de 2016

(Re)Compor

Choque de realidade. Talvez fosse isso o que eu tanto precisava (e merecia) há tanto tempo. 
Uma pessoa extremamente sensível, mas petrificada em um imenso cubo de gelo, onde ninguém tem acesso à tamanha sensibilidade. 
Essas eram as palavras que tanto busquei. Estariam elas até então igualmente congeladas? E não é que justamente em meio a este rigoroso inverno, elas resolveram descongelar?
Vou me recompor. Mas não como a bela melodia que sempre acreditei ser. E sim, como a fria e melancólica sinfonia que só encanta aos corações dispostos a senti-la.

8 de maio de 2016

A beleza dos sonhadores

Sou uma defensora do viver e da vida, é inegável. Mas também é inevitável que entre os milhares de dias vividos, em alguns – ou na maioria deles – você só exista. 
A sensação nesses dias se assemelha ao que deve ser sobrevoar o mundo em cima de uma nuvem. Uma nuvem instável. Embora eu nunca tenha tido esta experiência. Bem, não de transitar pelo mundo a bordo de uma nuvem. Mas com certeza, conheço bem a instabilidade dos dias. 
Os dias em que parece não haver caminhos possíveis. Dias imóveis, sufocantes. Você sabe que há tanta vida... Mas você sente-se imergindo nela. Afundando, sendo tragado por essa vida incessante. Sem chance de defesa.
Com uma esperança, – do verbo esperançar, e não do verbo esperar – que alguém igualmente a bordo de uma nuvem pare ao seu lado e lhe indique um caminho. Alguém disposto a seguir pela segunda estrela à direita e então direto, até amanhecer.

18 de fevereiro de 2016

Voltando à vida, em todos os aspectos

O carnaval passou, agora é que o ano “verdadeiramente começará”, como se diz por aí. Mas não é apenas isso.
As férias já terminaram pra alguns, ou encaminham-se para o final, pra outros. Trabalhos e estudos são gradualmente restaurados. Mas não é apenas isso.
É a volta do esforço diário e ininterrupto em enxergar as coisas boas que o cotidiano tem a oferecer através dos fatos mais comuns.
É a busca por histórias bonitas: aquelas simples e verdadeiras que acontecem a todo o momento e só precisam de um olhar disposto a enxergá-las. Não mais as histórias incríveis, mas irreais cultivadas em outros tempos.
Não há sensação melhor do que voltar à vida depois de um tempo afastada de si mesma.

15 de janeiro de 2016

Reflexões dos vinte

 Espero, sozinha, em um quarto já escuro, que o relógio marque meia-noite. Algo completamente simbólico, considerando que nasci somente às nove horas e vinte minutos da manhã. Há vinte anos atrás, nesta exata hora em que hoje aqui escrevo, tinha umas seis horas de vida.
É tão estranho parar pra pensar nisso, em todo esse processo de nascer e crescer. Talvez tenhamos nascido destinados a nos tornarmos algo, alguém específico. Talvez eu tenha nascido já pré-destinada a ser o que sou hoje. Talvez tudo o que me tornarei já esteja escrito em algum lugar qualquer.
As possibilidades são tantas que nem sabemos o que fazer com elas. E provavelmente ninguém nunca saberá até que ponto somos influenciáveis por estas partes ocultas que desconhecemos de nós mesmos. Tudo o que nos resta é ir traçando o destino na medida em que o percorremos.
Vinte anos. Entre as parabenizações que recebi, algumas delas me alertam sobre a incidência de cabelos brancos que nascem quase que instantaneamente nesta faixa etária. Em outras, além do costumeiro “parabéns”, recebi também um “bem-vinda” a década dos vinte, juntamente com as típicas reflexões. 
Ah, as reflexões! O sentir-se a cada ano mais velha, se é que dá pra usar essa expressão com tão tenra idade. Mas o tempo passa... E apesar da forma como ele é medido permanecer a mesma, ele parece passar mais rápido a cada dia. E, às vezes, por mais que a gente cresça, além das coisas que não conseguimos entender, há também o medo de não conseguir acompanhar a passagem acelerada dos dias. 

16 de dezembro de 2015

Pausa para balanço

Dois-mil-e-quinze. Será que já faz quantos anos que esse ano começou? Porque minhas memórias do início deste ano parecem tão longínquas no tempo...
Em 2014 havia iniciado uma pequena meta pessoal: ao longo do ano, escrever em um papel cada momento em que me senti extremamente feliz, identificar o motivo, e então guardar aquele pedaço de papel, repetindo este processo sempre que me sentisse tão feliz a ponto de querer guardar aquele momento para ao final do ano relembrá-lo.
O resultado? No final de 2014, reuni todos aqueles bilhetes, reli todos eles, e relembrei de como fui feliz nos momentos descritos, mas no atual momento em que os lia, o que sentia era quase que uma indiferença, algo como: “o que tornou aquele dia tão especial e digno de ser lembrado, mas que agora já não me causa nenhum daqueles sentimentos anteriores?”
Esse ano de 2015, apesar de continuar com a meta, não escrevi nenhum bilhete que possa ser relido. Isso significa que não tive nenhum momento de felicidade nesse ano? Muito pelo contrário.
Ouso dizer que este foi o melhor ano do qual tenho recordação, e a prova é que apesar de não haverem bilhetes a serem lidos, lembro perfeitamente dos momentos em que fui mais feliz. E sorrio novamente, assim, sozinha mesmo. Não houve essa felicidade em que parece que vamos explodir. Ainda bem, porque não quero explodir de felicidade. Se explodir, não vai restar mais nada, muito menos felicidade. Quero estar inteira em todos os momentos, e continuar sentindo essa alegria humana mesmo, que me fez tão bem ao longo desse ano.

Finais de ano geralmente costumam ser de desejos para que o próximo ano seja bom e todos esses clichês sem sentido. Mas esse final de ano, só tenho a agradecer. Agradecer a qualquer que seja a divindade que possa estar regendo isso aqui, agradecer a quaisquer forças cósmicas, ao destino ou outras coisas do gênero. Ou simplesmente, agradecer às pessoas que apareceram em minha vida, ou àquelas que se reaproximaram depois de algum tempo distantes. Agradecer inclusive por tudo que desejei e não foi possível no ano passado, ter se concretizado nesse ano.
Então 2016, estarei te esperando de braços e coração abertos, mas sem esperar nada de especial. Se você for tão bom quanto 2015, já terá superado todas as expectativas que eu pudesse ter.

15 de novembro de 2015

Para desentristecer

O canto dos passarinhos. A natureza. A calma, mas entendida como característica diferente do silêncio. Não há silêncio, pelo contrário: há gritos, há tumulto (interior e exterior). Mas o exterior é proveniente das crianças que aqui estão, elas só estão sendo elas mesmas. (Há sentimento mais recompensador que este?)
E o tumulto interior, bem, todos já sabem de onde vem. Ele está instaurado: fez moradia, de mala e cuia, como costuma-se dizer aqui no sul.
Porém, descobri que ele não é tão mau vizinho assim. Eventualmente discutimos um pouco, mas tudo é resolvido quando tomo o controle da situação e proclamo: quem manda aqui sou eu, se você não está feliz que vá embora!
Ele não vai, mas se acalma. Posso então ter de volta essa falsa sensação de paz, mas que parece já ser o suficiente.

7 de novembro de 2015

Ferida aberta e exposta (Esse texto não deveria estar aqui)

O que fazer quando não mais sabemos o que fazer?
Faz um bom tempo que tenho gradualmente me afastado mais de qualquer possível rumo que a vida pudesse adquirir. Algumas pessoas convivem bem com a rotina, onde tudo está pré-estabelecido, afastando a margem de erro; já outras, preferem e se adaptam mais facilmente a imprevisibilidade dos dias. Sempre mantive certo orgulho de fazer parte do primeiro grupo: nunca precisei que nada de surpreendente acontecesse para que eu visse beleza nos dias, em todos eles, até nos mais sombrios. Mas e agora que não parece haver mais nada realmente previsível, como viver nessa inconstância?
Reconheço o quão idiota e sem sentido tudo isso soa, todos afirmam e me relembram constantemente o quanto minha vida é boa, o quanto tenho sido burra por alimentar isso. Mas então, eu os imploro: o que eu faço?
Como disse certa vez Vinicius de Moraes... Acontece que eu sou triste. Não é por livre e espontânea vontade. Não sei em que momento me tornei assim, se é que houve algum, ou essa é uma característica que vem se formando ao longo de meus dezenove anos. Mas eu sou assim, e desde que me reconheço por gente, sempre fui. Simplesmente desenvolvi técnicas próprias que me permitiram lidar maduramente com isso. Mas minhas forças tem se mostrado abaladas.
Sempre fui a fortaleza que devia transmitir força para outros seres que a necessitassem e buscassem ajuda, quando a surgida de seu próprio interior não fosse suficientemente forte para a manter íntegra. Mas e como reabastecer uma fortaleza que se apresenta escassa de sua matéria-prima, a força? Todos parecem já estar esgotados por si mesmos, ninguém deve ser obrigado a arcar com tamanha responsabilidade física e moral.
Talvez seja apenas uma questão simples. Mas é na simplicidade que as coisas demonstram sua complexidade.

Esse texto não deveria estar aqui, mesmo. Mas ele está, e provavelmente continuará. Como uma ferida aberta e exposta, mas que com o tempo vai cicatrizar.

12 de outubro de 2015

O dia que não nos pertence

Dia das crianças. O dia em que comemoramos as buscas incansáveis realizadas por nós, “adultos”, na tentativa de manter viva essa essência, esse espírito infantil que nos parece tão fundamental.
Técnicas estas que não tem surtido efeito algum, em vista que ainda nos causa tamanho espanto e encantamento ver uma criança rolando na grama. Que tolos somos nós, subestimando um ato tão revolucionário!
Ao invés de absorvermos toda essa inteligência inocente presente nas crianças, a verdade é que as contagiamos com nossas ignorâncias, nossos pré-conceitos. Exemplo: todos nós nascemos sabendo dançar e cantar. E se alguém ousa não acreditar no que aqui digo, é simples, observe uma criança protagonizando seus shows particulares e suas coreografias ensaiadas no meio da sala. As crianças sabem o que estão fazendo, e mais, tem a segurança de serem perfeitas em seus gestos.
Perfeição esta que é perdida ao longo dos anos, até chegar ao mundo adulto. Que é, provavelmente, o mundo mais sem graça já descoberto, onde ninguém dança e ninguém canta, sob o argumento de que não sabem e nem possuem o tempo necessário a desperdiçar “tentando” aprender! Acho que deu pra entender o quão contraditório isso é. Por isso, não ensinem as crianças sob a suposição de que necessitam aprender a dançar ou a cantar, para só então assim o fazê-lo!
Queremos acreditar que somos dignos de comemorar um dia que não é, nem nunca mais será nosso. Somos adultos, querendo ou não, aceitando o fato e agindo como tais ou não. Mas é que às vezes, inevitavelmente, dá um medo do escuro.

30 de setembro de 2015

Quando o entardecer chega

 Ao entardecer as pessoas revelam quem são.
Seus rostos cansados exprimem o longo dia que tiveram, os problemas que enfrentaram no decorrer deste dia ensolarado, se é que alguma destas pessoas percebeu que havia sol lá fora. Alguns destes rostos, juntamente com seus corpos, locomovem-se para suas casas, outros ainda precisam aguentar a segunda etapa do dia, ou talvez a primeira da noite.
Em outra rotina, apesar de semelhante cenário, algumas pessoas passeiam com seus cães; animais irracionais fadados à vontade de seus donos que naquele momento desejam passear.
Outros indivíduos estão em suas casas. Alguns podem ser visualizados em suas existências, outros, reclusos sem que ninguém tome consciência de sua individualidade, estão apenas procurando motivos para que o dia continue e assim que o momento propício chegar, termine. Estas esperam pelo dia de amanhã.
Ao entardecer as pessoas são elas mesmas.

8 de setembro de 2015

Carta à menina que chorava no banheiro

Olá, tudo bem? Espero que sim, considerando que as circunstâncias que motivaram esta carta não são as melhores. Naquele dia no qual nos conhecemos, ou nos encontramos para ser mais exata, considerando que não conheço nada a seu respeito; naquele dia, cujo não me recordo mais que dia da semana era, provavelmente um dia chuvoso, especialmente para você; me deparei com você lavando o rosto, na tentativa de anular as lágrimas juntamente com a água, enquanto ainda soluçava, aquele soluço de quem percebe que já não adianta chorar, mas percebe tarde demais.
Presenciei esta cena no exato momento em que adentrei a porta do recinto. Juro que meu primeiro ato pensado seria o de pedir o que havia acontecido, se precisava de ajuda. Mas eu não consegui pensar. Não sei se serei capaz de me explicar claramente, mas naquele instante, quem soluçava, ali sozinha, também era eu. Eram meus antigos momentos mais sombrios, já devidamente superados, mas que eram personificados em minha frente, me deixando novamente sem reação.
Não sei se ao sair você foi ao encontro de alguém que iria te abraçar e ofertar palavras de apoio. Por minha própria consciência culpada, espero que sim. Mas de qualquer maneira, te devo desculpas. E espero sinceramente que esteja tudo bem.
É inegável que chorar faz bem às vezes. E se o motivo era algo singelo (mas que mesmo assim todos sabem o quanto doi), como brigas ou coração partido, me sinto na obrigação de te alertar: você ainda vai chorar muito. Porém, vai sobreviver.
Mas se do contrário, o motivo era algo mais grave, desejo que você tenha sempre força suficiente para continuar, sabe? Mesmo que às vezes não pareça, há tanta coisa boa nos esperando lá na frente e que só conheceremos se continuarmos.

26 de agosto de 2015

Metamorfoses emocionais

Desacelerando. The Fray tocando ao fundo, tão baixinho que o som da chuva lá fora quase se sobrepõe à música. Vocês já estão sentindo a névoa dissipar-se, caríssimos sentimentos conflitantes? Espero que sim.
Estou me perdendo em busca de encontrá-los. Mas não assustem-se, por favor. Não os procuro com a intenção de destruí-los, vocês lembram-se de uma única vez que eu os tenha maltratado, por acaso? Já eu, não posso afirmar o mesmo.
Mas tudo bem, também não estou aqui para tirar quaisquer satisfações ou culpá-los, eu juro. Venho até este informar que estou em missão de paz. Quero conviver amigavelmente com vocês, se me permitem. Porém, para que isso aconteça, primeiramente preciso de suas contribuições adquirindo qualquer forma, mesmo que metafórica, que me permita reconhecê-los e respeitá-los como merecem.
Então, coragem! Saiam de suas inconsciências e assumam os lugares que em meu coração a vocês destina-se. Não tenham medo. Estou disposta a senti-los em toda a sua extensão.

25 de julho de 2015

Ao pássaro que mora em meu coração

Em um de seus mais célebres poemas, Bukowski atribui a um pássaro, o pássaro em seu peito que quer sair e não é autorizado a fazê-lo, a cor azul. Mas diferentemente de Bukowski, deixo o meu pássaro livre para sair quando assim ele desejar. Mesmo que nossas vontades, de sair e permanecer, nem sempre correspondam entre si.
Minha atitude pode não ser tão esperta quanto à do escritor. O pássaro pode sim me arruinar, ainda mais usufruindo de tamanha liberdade, mas prefiro confiar que ele não o fará. E quando chega o momento de meu pássaro, que não é azul, aconchegar-se novamente em seu lar, ele também se permite entristecer. E seu canto, outrora tão alegre, exprime o quão vivo encontra-se.
Sua cor? Arrisco dizer que possivelmente tons alaranjados. Talvez da mesma tonalidade que o sol ao amanhecer. Talvez o pássaro que em mim vive e comigo tem convivido seja originário do próprio sol. Isso explicaria porque minha alma se sente tão bem quando exposta ao sol. O pássaro que em meu corpo vive se sente novamente em casa. E eu não permitirei que ele deixe de cantar, por mais doloroso que isso às vezes seja.


20 de julho de 2015

Os atos cotidianos de amizade

Nunca consegui entender essas datas específicas que são costumeiramente intituladas comemorativas. E esta é mais uma delas: o dia do amigo. Mas o que pode existir de especial em um dia aparentemente comum (como a maioria dos dias nos parece) apenas por alguém o ter definido desta maneira?
Amigo é quem compartilha momentos? Com quem se divide laços afetivos? Mas então, qual a denominação adequada a quem não tem esta proximidade que o permitiria ser caracterizado como “amigo”, mas que ao mesmo tempo possui, ou possuiu em algum momento, valor inestimável na constituição de quem somos?
Em uma pesquisa rápida por páginas aleatórias da internet, encontra-se a palavra amigo como sendo um indivíduo que mantemos um relacionamento de afeto, a quem respeitamos e estamos sempre prontos a ajudar, mas não como um dever, e sim, como pura e simples lealdade.  
Mas estes atos não deveriam ser naturais e genuínos para com todos os seres humanos, independente de serem compreendidos como “amigos”? Parece que não.
A amizade, assim como o amor e demais sentimentos que expressam o que de bom ainda existe na humanidade e no convívio diário, devem ser exatamente isso: atos cotidianos, intrínsecos às relações, sejam elas quais forem.
Amizades são atos de gentileza, são relações que não exigem, mas convidam a uma reciprocidade. Amizade é você estar tão bem consigo mesmo, que o carinho não lhe cabe no peito e espalha-se entre as pessoas próximas.
Eu mesma possuo pessoas que nem imaginam a contribuição que exerceram em minha vida, talvez não saibam nem mesmo que em minhas lembranças permaneçam como amigas, mas elas estão lá. Nenhuma relação humana precisa necessariamente perdurar pela vida inteira para que possa ser considerada importante. Uma pessoa pode tornar-se especial apenas por você criar diálogos que talvez nunca ocorram, mas que só de imaginar já te confortam. 

24 de junho de 2015

Subsistência

Eu não quero me entender. Porque ao supostamente me entender, fica subentendido que eu devo interferir. E eu não quero interferir. Eu quero sentir as coisas em sua totalidade, sabe? Eu quero ser realmente feliz, sim, é claro que eu quero, assim como o restante da galáxia também quer. Mas apesar de não querer, não no sentido de almejar, seria masoquismo demais, mas eu realmente não me importo de sofrer um pouco às vezes. Ok, admito. No momento em que estou sofrendo não queria estar em tal situação. Mas agora, visualizando assim de fora, daqui da onde o ar é rarefeito, na indiferença, eu até prefiro ter aquela angústia, aquela dor lá no fundo do peito, que não é fome. É relativamente fácil adquirir autoconhecimento suficiente pra entender os próprios motivos de crise ou de felicidade extrema. Mas nenhum conhecimento do mundo provavelmente irá justificar a indiferença. É um estado neutro, sem graça. Parece que não pode existir vida neste local. E talvez nem exista mesmo. É só esse estado de transição pelo qual a existência passa, às vezes detém-se um pouco, mas logo segue pra algum dos extremos no qual a vida existe e subsiste.