16 de dezembro de 2015

Pausa para balanço

Dois-mil-e-quinze. Será que já faz quantos anos que esse ano começou? Porque minhas memórias do início deste ano parecem tão longínquas no tempo...
Em 2014 havia iniciado uma pequena meta pessoal: ao longo do ano, escrever em um papel cada momento em que me senti extremamente feliz, identificar o motivo, e então guardar aquele pedaço de papel, repetindo este processo sempre que me sentisse tão feliz a ponto de querer guardar aquele momento para ao final do ano relembrá-lo.
O resultado? No final de 2014, reuni todos aqueles bilhetes, reli todos eles, e relembrei de como fui feliz nos momentos descritos, mas no atual momento em que os lia, o que sentia era quase que uma indiferença, algo como: “o que tornou aquele dia tão especial e digno de ser lembrado, mas que agora já não me causa nenhum daqueles sentimentos anteriores?”
Esse ano de 2015, apesar de continuar com a meta, não escrevi nenhum bilhete que possa ser relido. Isso significa que não tive nenhum momento de felicidade nesse ano? Muito pelo contrário.
Ouso dizer que este foi o melhor ano do qual tenho recordação, e a prova é que apesar de não haverem bilhetes a serem lidos, lembro perfeitamente dos momentos em que fui mais feliz. E sorrio novamente, assim, sozinha mesmo. Não houve essa felicidade em que parece que vamos explodir. Ainda bem, porque não quero explodir de felicidade. Se explodir, não vai restar mais nada, muito menos felicidade. Quero estar inteira em todos os momentos, e continuar sentindo essa alegria humana mesmo, que me fez tão bem ao longo desse ano.

Finais de ano geralmente costumam ser de desejos para que o próximo ano seja bom e todos esses clichês sem sentido. Mas esse final de ano, só tenho a agradecer. Agradecer a qualquer que seja a divindade que possa estar regendo isso aqui, agradecer a quaisquer forças cósmicas, ao destino ou outras coisas do gênero. Ou simplesmente, agradecer às pessoas que apareceram em minha vida, ou àquelas que se reaproximaram depois de algum tempo distantes. Agradecer inclusive por tudo que desejei e não foi possível no ano passado, ter se concretizado nesse ano.
Então 2016, estarei te esperando de braços e coração abertos, mas sem esperar nada de especial. Se você for tão bom quanto 2015, já terá superado todas as expectativas que eu pudesse ter.

15 de novembro de 2015

Para desentristecer

O canto dos passarinhos. A natureza. A calma, mas entendida como característica diferente do silêncio. Não há silêncio, pelo contrário: há gritos, há tumulto (interior e exterior). Mas o exterior é proveniente das crianças que aqui estão, elas só estão sendo elas mesmas. (Há sentimento mais recompensador que este?)
E o tumulto interior, bem, todos já sabem de onde vem. Ele está instaurado: fez moradia, de mala e cuia, como costuma-se dizer aqui no sul.
Porém, descobri que ele não é tão mau vizinho assim. Eventualmente discutimos um pouco, mas tudo é resolvido quando tomo o controle da situação e proclamo: quem manda aqui sou eu, se você não está feliz que vá embora!
Ele não vai, mas se acalma. Posso então ter de volta essa falsa sensação de paz, mas que parece já ser o suficiente.

7 de novembro de 2015

Ferida aberta e exposta (Esse texto não deveria estar aqui)

O que fazer quando não mais sabemos o que fazer?
Faz um bom tempo que tenho gradualmente me afastado mais de qualquer possível rumo que a vida pudesse adquirir. Algumas pessoas convivem bem com a rotina, onde tudo está pré-estabelecido, afastando a margem de erro; já outras, preferem e se adaptam mais facilmente a imprevisibilidade dos dias. Sempre mantive certo orgulho de fazer parte do primeiro grupo: nunca precisei que nada de surpreendente acontecesse para que eu visse beleza nos dias, em todos eles, até nos mais sombrios. Mas e agora que não parece haver mais nada realmente previsível, como viver nessa inconstância?
Reconheço o quão idiota e sem sentido tudo isso soa, todos afirmam e me relembram constantemente o quanto minha vida é boa, o quanto tenho sido burra por alimentar isso. Mas então, eu os imploro: o que eu faço?
Como disse certa vez Vinicius de Moraes... Acontece que eu sou triste. Não é por livre e espontânea vontade. Não sei em que momento me tornei assim, se é que houve algum, ou essa é uma característica que vem se formando ao longo de meus dezenove anos. Mas eu sou assim, e desde que me reconheço por gente, sempre fui. Simplesmente desenvolvi técnicas próprias que me permitiram lidar maduramente com isso. Mas minhas forças tem se mostrado abaladas.
Sempre fui a fortaleza que devia transmitir força para outros seres que a necessitassem e buscassem ajuda, quando a surgida de seu próprio interior não fosse suficientemente forte para a manter íntegra. Mas e como reabastecer uma fortaleza que se apresenta escassa de sua matéria-prima, a força? Todos parecem já estar esgotados por si mesmos, ninguém deve ser obrigado a arcar com tamanha responsabilidade física e moral.
Talvez seja apenas uma questão simples. Mas é na simplicidade que as coisas demonstram sua complexidade.

Esse texto não deveria estar aqui, mesmo. Mas ele está, e provavelmente continuará. Como uma ferida aberta e exposta, mas que com o tempo vai cicatrizar.

12 de outubro de 2015

O dia que não nos pertence

Dia das crianças. O dia em que comemoramos as buscas incansáveis realizadas por nós, “adultos”, na tentativa de manter viva essa essência, esse espírito infantil que nos parece tão fundamental.
Técnicas estas que não tem surtido efeito algum, em vista que ainda nos causa tamanho espanto e encantamento ver uma criança rolando na grama. Que tolos somos nós, subestimando um ato tão revolucionário!
Ao invés de absorvermos toda essa inteligência inocente presente nas crianças, a verdade é que as contagiamos com nossas ignorâncias, nossos pré-conceitos. Exemplo: todos nós nascemos sabendo dançar e cantar. E se alguém ousa não acreditar no que aqui digo, é simples, observe uma criança protagonizando seus shows particulares e suas coreografias ensaiadas no meio da sala. As crianças sabem o que estão fazendo, e mais, tem a segurança de serem perfeitas em seus gestos.
Perfeição esta que é perdida ao longo dos anos, até chegar ao mundo adulto. Que é, provavelmente, o mundo mais sem graça já descoberto, onde ninguém dança e ninguém canta, sob o argumento de que não sabem e nem possuem o tempo necessário a desperdiçar “tentando” aprender! Acho que deu pra entender o quão contraditório isso é. Por isso, não ensinem as crianças sob a suposição de que necessitam aprender a dançar ou a cantar, para só então assim o fazê-lo!
Queremos acreditar que somos dignos de comemorar um dia que não é, nem nunca mais será nosso. Somos adultos, querendo ou não, aceitando o fato e agindo como tais ou não. Mas é que às vezes, inevitavelmente, dá um medo do escuro.

30 de setembro de 2015

Quando o entardecer chega

 Ao entardecer as pessoas revelam quem são.
Seus rostos cansados exprimem o longo dia que tiveram, os problemas que enfrentaram no decorrer deste dia ensolarado, se é que alguma destas pessoas percebeu que havia sol lá fora. Alguns destes rostos, juntamente com seus corpos, locomovem-se para suas casas, outros ainda precisam aguentar a segunda etapa do dia, ou talvez a primeira da noite.
Em outra rotina, apesar de semelhante cenário, algumas pessoas passeiam com seus cães; animais irracionais fadados à vontade de seus donos que naquele momento desejam passear.
Outros indivíduos estão em suas casas. Alguns podem ser visualizados em suas existências, outros, reclusos sem que ninguém tome consciência de sua individualidade, estão apenas procurando motivos para que o dia continue e assim que o momento propício chegar, termine. Estas esperam pelo dia de amanhã.
Ao entardecer as pessoas são elas mesmas.

8 de setembro de 2015

Carta à menina que chorava no banheiro

Olá, tudo bem? Espero que sim, considerando que as circunstâncias que motivaram esta carta não são as melhores. Naquele dia no qual nos conhecemos, ou nos encontramos para ser mais exata, considerando que não conheço nada a seu respeito; naquele dia, cujo não me recordo mais que dia da semana era, provavelmente um dia chuvoso, especialmente para você; me deparei com você lavando o rosto, na tentativa de anular as lágrimas juntamente com a água, enquanto ainda soluçava, aquele soluço de quem percebe que já não adianta chorar, mas percebe tarde demais.
Presenciei esta cena no exato momento em que adentrei a porta do recinto. Juro que meu primeiro ato pensado seria o de pedir o que havia acontecido, se precisava de ajuda. Mas eu não consegui pensar. Não sei se serei capaz de me explicar claramente, mas naquele instante, quem soluçava, ali sozinha, também era eu. Eram meus antigos momentos mais sombrios, já devidamente superados, mas que eram personificados em minha frente, me deixando novamente sem reação.
Não sei se ao sair você foi ao encontro de alguém que iria te abraçar e ofertar palavras de apoio. Por minha própria consciência culpada, espero que sim. Mas de qualquer maneira, te devo desculpas. E espero sinceramente que esteja tudo bem.
É inegável que chorar faz bem às vezes. E se o motivo era algo singelo (mas que mesmo assim todos sabem o quanto doi), como brigas ou coração partido, me sinto na obrigação de te alertar: você ainda vai chorar muito. Porém, vai sobreviver.
Mas se do contrário, o motivo era algo mais grave, desejo que você tenha sempre força suficiente para continuar, sabe? Mesmo que às vezes não pareça, há tanta coisa boa nos esperando lá na frente e que só conheceremos se continuarmos.

26 de agosto de 2015

Metamorfoses emocionais

Desacelerando. The Fray tocando ao fundo, tão baixinho que o som da chuva lá fora quase se sobrepõe à música. Vocês já estão sentindo a névoa dissipar-se, caríssimos sentimentos conflitantes? Espero que sim.
Estou me perdendo em busca de encontrá-los. Mas não assustem-se, por favor. Não os procuro com a intenção de destruí-los, vocês lembram-se de uma única vez que eu os tenha maltratado, por acaso? Já eu, não posso afirmar o mesmo.
Mas tudo bem, também não estou aqui para tirar quaisquer satisfações ou culpá-los, eu juro. Venho até este informar que estou em missão de paz. Quero conviver amigavelmente com vocês, se me permitem. Porém, para que isso aconteça, primeiramente preciso de suas contribuições adquirindo qualquer forma, mesmo que metafórica, que me permita reconhecê-los e respeitá-los como merecem.
Então, coragem! Saiam de suas inconsciências e assumam os lugares que em meu coração a vocês destina-se. Não tenham medo. Estou disposta a senti-los em toda a sua extensão.

25 de julho de 2015

Ao pássaro que mora em meu coração

Em um de seus mais célebres poemas, Bukowski atribui a um pássaro, o pássaro em seu peito que quer sair e não é autorizado a fazê-lo, a cor azul. Mas diferentemente de Bukowski, deixo o meu pássaro livre para sair quando assim ele desejar. Mesmo que nossas vontades, de sair e permanecer, nem sempre correspondam entre si.
Minha atitude pode não ser tão esperta quanto à do escritor. O pássaro pode sim me arruinar, ainda mais usufruindo de tamanha liberdade, mas prefiro confiar que ele não o fará. E quando chega o momento de meu pássaro, que não é azul, aconchegar-se novamente em seu lar, ele também se permite entristecer. E seu canto, outrora tão alegre, exprime o quão vivo encontra-se.
Sua cor? Arrisco dizer que possivelmente tons alaranjados. Talvez da mesma tonalidade que o sol ao amanhecer. Talvez o pássaro que em mim vive e comigo tem convivido seja originário do próprio sol. Isso explicaria porque minha alma se sente tão bem quando exposta ao sol. O pássaro que em meu corpo vive se sente novamente em casa. E eu não permitirei que ele deixe de cantar, por mais doloroso que isso às vezes seja.


20 de julho de 2015

Os atos cotidianos de amizade

Nunca consegui entender essas datas específicas que são costumeiramente intituladas comemorativas. E esta é mais uma delas: o dia do amigo. Mas o que pode existir de especial em um dia aparentemente comum (como a maioria dos dias nos parece) apenas por alguém o ter definido desta maneira?
Amigo é quem compartilha momentos? Com quem se divide laços afetivos? Mas então, qual a denominação adequada a quem não tem esta proximidade que o permitiria ser caracterizado como “amigo”, mas que ao mesmo tempo possui, ou possuiu em algum momento, valor inestimável na constituição de quem somos?
Em uma pesquisa rápida por páginas aleatórias da internet, encontra-se a palavra amigo como sendo um indivíduo que mantemos um relacionamento de afeto, a quem respeitamos e estamos sempre prontos a ajudar, mas não como um dever, e sim, como pura e simples lealdade.  
Mas estes atos não deveriam ser naturais e genuínos para com todos os seres humanos, independente de serem compreendidos como “amigos”? Parece que não.
A amizade, assim como o amor e demais sentimentos que expressam o que de bom ainda existe na humanidade e no convívio diário, devem ser exatamente isso: atos cotidianos, intrínsecos às relações, sejam elas quais forem.
Amizades são atos de gentileza, são relações que não exigem, mas convidam a uma reciprocidade. Amizade é você estar tão bem consigo mesmo, que o carinho não lhe cabe no peito e espalha-se entre as pessoas próximas.
Eu mesma possuo pessoas que nem imaginam a contribuição que exerceram em minha vida, talvez não saibam nem mesmo que em minhas lembranças permaneçam como amigas, mas elas estão lá. Nenhuma relação humana precisa necessariamente perdurar pela vida inteira para que possa ser considerada importante. Uma pessoa pode tornar-se especial apenas por você criar diálogos que talvez nunca ocorram, mas que só de imaginar já te confortam. 

24 de junho de 2015

Subsistência

Eu não quero me entender. Porque ao supostamente me entender, fica subentendido que eu devo interferir. E eu não quero interferir. Eu quero sentir as coisas em sua totalidade, sabe? Eu quero ser realmente feliz, sim, é claro que eu quero, assim como o restante da galáxia também quer. Mas apesar de não querer, não no sentido de almejar, seria masoquismo demais, mas eu realmente não me importo de sofrer um pouco às vezes. Ok, admito. No momento em que estou sofrendo não queria estar em tal situação. Mas agora, visualizando assim de fora, daqui da onde o ar é rarefeito, na indiferença, eu até prefiro ter aquela angústia, aquela dor lá no fundo do peito, que não é fome. É relativamente fácil adquirir autoconhecimento suficiente pra entender os próprios motivos de crise ou de felicidade extrema. Mas nenhum conhecimento do mundo provavelmente irá justificar a indiferença. É um estado neutro, sem graça. Parece que não pode existir vida neste local. E talvez nem exista mesmo. É só esse estado de transição pelo qual a existência passa, às vezes detém-se um pouco, mas logo segue pra algum dos extremos no qual a vida existe e subsiste. 

10 de junho de 2015

De quando somos devolvidos a nós mesmos

Você trouxe de volta para minha vida o acaso que tinha temporariamente me deixado nesta monotonia que é a vida planejada, mesmo que imprevisível. Você me proporcionou novamente esta esperança no amor, não por senti-lo de forma propriamente dita, mas sim, percebê-lo como algo possível e real.
Somos tão semelhantes em nossas dificuldades. Por motivos distintos, mas talvez sejamos ambos vítimas desta sociedade individualista, que não importa-se com nenhuma outra consciência que esteja a sofrer, além de si mesma.
Mas não podemos culpá-las: provavelmente, estão apenas repassando sentimentos por elas anteriormente sofridos. Talvez caiba a pessoas como nós acabar com este problema, recusando-se a machucar o outro, exatamente por um dia também ter sido machucado e saber o quanto dói, não desejando o mesmo para ninguém.
Sei que isso pode te assustar, mas fica tranquilo, este não é um texto sobre amor e nem tem a pretensão de ser. Até porque não tenho autoridade alguma para escrever sobre algo que nem mesmo conheço. É apenas um texto para eternizar estes sentimentos bons provocados por você.

23 de maio de 2015

Serenidade

Não é êxtase. É equilíbrio. É maturidade. É quietude, mas não entendida como conformidade. É sentir estar no caminho correto, ou na estrada que leva diretamente até ele. Mas mesmo assim, não aceitar seguir pelo caminho mais fácil, já percorrido inúmeras vezes.
É traçar metas, objetivos, pontos de chegada e de partida e estar ciente de que tudo dependerá diretamente de sua caminhada. Ou corrida. De sua velocidade, mas principalmente, de sua paciência, em especial nos momentos íngremes. Afinal, quando transpostos eles te elevarão em sua existência, em suas próprias aparentes limitações.
Mas quando chegar lá no alto, se seus pulos de comemoração forem intensos demais, você vai escorregar. E então voltará a etapa inicial. Isso se repetirá continuamente, quantas vezes forem necessárias para que aprenda que mais importante que estar feliz, é saber lidar harmoniosa e delicadamente com esta felicidade. (Que inclusive assusta-se com grandes agitações e vai embora)

6 de maio de 2015

Vocês não estão vendo a lua?

Por favor, desviem seus olhares de qualquer objeto tecnológico luminoso que possa estar a sua frente, encobrindo sua visão para o que realmente tem importância fora da tela, e olhem para o céu lá fora. Pode ser até pela janela, se considerar que o vidro impedirá este contato direto com o mundo real que parece causar tanto medo. 
Mas observem, admirem, sonhem, façam seus pedidos, ou ao menos a desprezem, se tiverem coragem para tanto. Eu só lhes peço, por favor, olhem para esta lua que nesse momento apresenta-se cheia lá no céu e sintam alguma coisa, expressem alguma reação, seja ela qual for! Só não ajam como se ela não estivesse ali.

30 de abril de 2015

Resiliência

Tem alguma coisa mais certa que o normal acontecendo comigo: voltei a cantar Legião Urbana mentalmente. Já posso até mesmo falar tranquilamente sobre o que em outras épocas me foi tão prejudicial. 
Tenho aos poucos adquirido essa força, sabe? Essa que depende mais de nossos próprios confrontos consigo mesmos e menos de fatores externos, que só vão adquirir significado quando assim os permitirmos.

*Resiliência: combinação de fatores que propiciam ao ser humano condições para enfrentar e superar problemas e adversidades sem entrar em surto psicológico.

9 de abril de 2015

Humanamente imperfeitos

Somos números. Perdemos nomes, rostos, identidades. Somos apenas representações ocupando espaço, não sabemos o que fazer com nossos corpos, não há lugar para eles, e por isso mesmo nos permitimos os rótulos que não nos diferem. Somos contas que deram errado, não queremos a diferenciação, pois ela implica consequências. Nossas assimetrias demonstram o quão imperfeitos e humanos somos, ou deveríamos ser. Queremos nos camuflar em um meio social que está fadado a rotina, a monotonia, ao fracasso. 
É uma pena eu não gostar de números. E ser adepta a ironia.

3 de abril de 2015

O nobre morador do feixe de luz e seus sábios conselhos

     Morador do feixe de luz: Me fale sobre a sua amiga borboleta.
Encantadora de borboletas: Não tive mais notícias dela... Ela ficou lá, sozinha...
                                        Tão triste perder amizades dessa maneira.
    Morador do feixe de luz: Tem que aprender a capturar as borboletas na hora certa.
                                         De nada serve a beleza de uma borboleta se não há ninguém para                                                                contemplar.
Encantadora de borboletas: Mas eu estava contemplando, juro. 
     Morador do feixe de luz: Contemplar do lado errado do vidro de nada serve.
Encantadora de borboletas: Serve sim... Estávamos as duas em meio a nossas individualidades...
     Morador do feixe de luz: Mas se tu estavas do lado errado, como saber se ela contemplou a tua                                                        beleza?
                                         Talvez o vidro tenha abafado os dizeres dela...
Encantadora de borboletas: Mas naquele momento em que nossos "olhares" cruzaram-se, nossas                                                          vidas também foram diretamente afetadas.
     Morador do feixe de luz: Tu diz isso pra mim, agora.
                                         Mas disse isso pra borboleta antes de ela ir embora?
Encantadora de borboletas: Claro que eu disse, por acaso eu tenho cara de quem não conversa                                                              educadamente com borboletas?
     Morador do feixe de luz: De maneira alguma iria insinuar algo desta forma, minha cara                                                                        encantadora de borboletas.
                                         Só digo que é importante estar do lado certo do vidro. Não correr riscos                                                        do vidro abafar ou distorcer dizeres tão belos.
Encantadora de borboletas: É fácil dizer isso... Mas um contato mais próximo dependeria dela voar                                                          para o lado de dentro, ou eu escalar a janela pelo lado de fora.
                                         Então acredito que não cabia a mim uma atitude.
     Morador do feixe de luz: Ou, simplesmente, de abrir a janela e convidá-la para adentrar o recinto.
                                         Não creia tu de que as borboletas não sejam seres inteligentes.
                                         É uma espécime tão sábia quanto é bela.
Encantadora de borboletas: A janela já estava aberta, porém ela não se sentiu muito confortável em                                                        entrar, acho.
                                         E quem sou eu pra mandar em um ser tão inteligente!
     Morador do feixe de luz: Mas... Se estava aberta, como então poderia haver um vidro? E, ainda                                                          mais, um lado errado?
                                         Sabes bem em compreender que não pode mandar nas borboletas.
                                         Mas podes, com toda a doçura, convencer de que o lado certo é o lado                                                        onde ela deve repousar.
Encantadora de borboletas: Vai explicar isso pras borboletas de hoje em dia... Teimosas.
     Morador do feixe de luz: Talvez tu precises observar os rouxinóis.
                                         Dizem que eles entregam do próprio sangue para transformar uma rosa                                                        branca em vermelha.
Encantadora de borboletas: Estou precisando conhecer esses aí.
     Morador do feixe de luz: Procure pelos contos do Oscar Wilde.
                                         O final da história do rouxinol é triste, mas...
                                         Quem sabe... Quem sabe, podemos reescrever para um final melhor?
Encantadora de borboletas: Procurarei sim... Sempre podemos!
     Morador do feixe de luz: Bom saber da sua tão nobre disposição!
                                         Sempre que quiser compartilhar dos meus sábios conselhos, podes me                                                        encontrar aqui, no feixe de luz próximo ao fim do mundo.

*Participação especial de um nobre morador de um feixe de luz tão tão distante.

22 de março de 2015

A borboleta do outro lado da janela

Será que existe coisa pior que esta? Refiro-me a inspiração ali, parada, exatamente ao meu lado, só esperando por ser escrita. Enquanto a aqui dita escritora, permanece alheia a vontade de outra criatura que não a si própria e a seus pensamentos, infelizmente nada tendo a ver com as palavras soltas, expostas na transparência do vidro. Mas sinto em lhe dizer que a culpa também foi sua, querida amiga borboleta. Você estava tão perto, mas ainda assim inacessível, escolhendo para seu repouso o lado “errado” da janela: o lado de fora. Estando, portanto, inalcançável mesmo com tanta proximidade.
Fico te devendo essa. Conto com sua colaboração na próxima.

15 de março de 2015

Reflexões... Desta vez sobre uma porta

Mas afinal, o que pode haver de reflexivo em um objeto concreto, morto, estático, que nem mesmo “existe”? (Ou seja, não é capaz de perguntar-se sobre sua própria existência, filosoficamente falando).
Pois onde há pessoas, há interação (até mesmo com uma porta) e, consequentemente, há reflexão. 
Então, imaginemos a seguinte situação: a porta estava aberta, até que uma corrente de vento a fecha, involuntariamente. A partir de então, todas as pessoas que chegarem e por ela passarem para entrar nesta sala, onde em breve começará a minha aula (e a de mais sessenta e quatro pessoas), fecha a porta, deixando-a da maneira que encontrou ao chegar. Isso sem nunca imaginar que minutos antes ela estava aberta e um pequeno acontecimento, ao acaso, foi capaz de mudar toda uma sequência de fatos.

7 de março de 2015

Antropologiando

Um cachorro aparentemente perdido, apesar de estar bem cuidado e com coleira, indicando que sua casa ou donos não devem estar tão distantes. Sexta-feira, final da primeira longa semana de aula na faculdade após as férias. Das impressões adquiridas, observadas e assimiladas acerca da situação e ambientes rotineiros.
Das pessoas que passam pelo cachorro, grande parte interroga: Outro? Vamos abrir medicina veterinária aqui!? Outra transeunte pronuncia frases ininteligíveis, típicas de conversação com bebês e animais domésticos. Em um banco próximo um rapaz fuma, comenta sobre o quanto o cachorro está limpo (deve ser a mim que ele dirige sua fala, sou a única que está ali e com o cachorro é pouco provável que ele puxe assunto, muito menos elogiando sua higiene). Estou interagindo com meu objeto de estudo.  O homem sai e volta acompanhado de uma senhora um pouco debilitada, que ele prontamente ajuda a sentar-se, fuma outro cigarro, discute sobre a vida e o quão difícil é conviver com uma pessoa. Até que minha colega chega e proclama: Juliana, da tchau pro cachorro, estamos indo embora.

10 de fevereiro de 2015

5 de fevereiro de 2015

Sei lá... A vida é uma grande ilusão

Quando foi que fiquei tão velha? E não uso esta palavra no sentido pejorativo, como é popularmente usada. É algo positivo ficar velha, mas quando foi exatamente que isto aconteceu e tornou-me esta criatura que tenho vivenciado no meu mais profundo ser? Que pouco ou nada contenta-se com as coisas mundanas, querendo sempre esse algo mais que a vida tem a oferecer, mas ainda não sabendo devidamente o que fazer com algo mais além de tudo que contém em si mesma. São tantas as coisas com que precisa lidar, mas tudo parece não necessitar de sua interferência. Ficar velho é assumir que a vida sempre tem razão.

20 de janeiro de 2015

As comemorações diárias

Faço aniversário apenas uma vez por ano. – Você também? Que coincidência! – Sempre foi quase que uma tradição que eu escrevesse um texto sobre esta data aqui no blog, mas nunca ficou estipulado em lugar nenhum que este texto deveria ser escrito no dia exato de quinze de janeiro. Então porque não escrevê-lo dias depois? Assim é possível intensificar a comemoração, tornando um aniversário não uma data única no ano, mas quantas forem desejadas.
De acordo com este pensamento, poderei escrever textos referindo-me a um mesmo aniversário todos os meses, sem que pra isso eu deva ficar um ano mais velha a cada novo mês. Parece a solução perfeita para quem prefere a expectativa à realização do fato.
Afinal, a cada ano comemoramos nossas novas experiências, nossa sabedoria, ou se não for o caso, no mínimo nossos aprendizados, mas esses são bens que vamos adquirindo e aprendendo a administrá-los ao longo da vida, que por sua vez, é construída ao longo dos dias. Que outra coisa isto pode significar a não ser que todos os dias devem ser comemorados?